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  • Esse texto

Planeta melancólico

A partir de Uma vida no teatro, do Teatro Aberto



Saio do Teatro Aberto a pensar na escolha que fiz. Lembro-me ao longo do caminho de volta a minha casa da primeira peça de teatro que me marcou; tento recriar, fechando os olhos no meio da rua, a sensação daquele sentimento novo que eu acabava de experimentar, eu devia ter uns treze anos; mas não consigo. Tento de novo, falho mais uma vez. Tento uma terceira vez e desisto. Não me pertence mais? Aquela certeza tão segura sobre a revolução pessoal e coletiva que opera o teatro em nós e em nossa comunidade, ainda existe? Ainda me tira o ar pensar que essa forma de comunicação artística, um acontecimento, uma receção, um momento, tem a força que um dia eu já imaginei que tinha? São mesmo sem volta os nossos primeiros contatos, ou melhor, de quantas novidades uma vida humana é feita? (Qual é o máximo de novidades que uma vida humana pode ter?). Ora, o teatro é só mais uma profissão como qualquer outra, não é? É sim, eu respondo a mim mesmo. É uma profissão como qualquer outra, um modo de ocupar a existência, distrair-se; é uma escolha (que faço junto a tantas outras). ⁋ Aprende-se diversas coisas em diversas profissões, cada qual com as suas estruturas, suas incoerências, seus problemas, seus modos de construir. Então, me perguntei mais uma vez, o que é que o teatro me ensinou? Logo, o verbo que apareceu nesta pergunta me incomodou, “me ensinou”, por que o passado? Estou vivo, estou a pensar teatro, estou a fazer teatro. Corrigi: o que o teatro me ensina? Que tudo é feito de tempo, espaço e conflito? A pensar mais nos outros, a alteridade, a descobrir a importância das relações entre seres vivos? A viver em sociedade? A viver, simplesmente? Não quero prolongar essa sequência de questões. Essa abundância de interrogações, ultimamente tem-me deixado aflito. (A escala dessas indagações me deixa aflito, a distância que essas questões colocam entre o teatro e a minha vida). ⁋ A peça apresenta ao público Robert, um ator mais velho e experiente, e John, um ator mais jovem, aparentemente em seu auge para os protagonismos, no momento em que terminam uma apresentação. Os dois estão nos bastidores, a tirar a maquilhagem e discutem a performance daquela noite. Estão separados por um espelho imaginário e, por isso, confundem-se. Não são seres humanos – são atores, sinto essa sugestão da dramaturgia (será que o seu autor considera que os atores ocupam uma posição diferente na medida humana?). John ansia por prosseguir os seus planos de vida após a apresentação, mas Robert está com disposição para uma avaliação crítica de seu próprio desempenho de ator, além de ter também uma ou duas considerações para o trabalho de John. Antes de trocarem apontamentos, Robert fala de nós, do público. Quando somos mais acalorados, quando somos difíceis. É claro que não éramos nós, ali, os espectadores da peça que acabava de terminar; mas é impossível para mim não me sentir como um representante desse todo, dessa ideia de público. Desloco-me, por isso, para a responsabilidade do acontecimento – parece óbvio, mas, de facto, não há teatro sem público. (Robert sabe disso). Podemos chamar do que quiser, mas é preciso um olhar estranho, alheio, um corpo qualquer que receba algo, pelos olhos, pelos ouvidos, pela cabeça ou por qualquer outra parte ou não de si mesmo. (Penso, como público, no meu papel enquanto tal: eu faria mesmo alguma diferença?). Somos capazes, como público, de fazer uma peça de teatro ser diferente? Mas diferente como? Diferente do que seria se não estivéssemos lá? Ou diferente pela presença que dispomos no sentido público-teatro? ⁋ A preocupação com o público sai da boca de Robert, o ator mais velho; John não parece se preocupar tanto com isso. Quando John, em troca, oferece um pequeno apontamento sobre a atuação de Robert, podemos ver esse comentário rastejar na consciência de Robert, fazendo-o revirá-lo repetidamente em uma busca de alguma perfeição fugidia. Fica tranquilo, Robert, não é nada de mais; você deve ter tantas outras coisas para se preocupar, não devia se importar tanto com isso. Vá, tira esse figurino e volta pra casa, descansa. Ou então saia já daí e toma um copo, guarda as suas preocupações pra depois. (Ou então, Robert, apenas lembre-se de que você é só mais um personagem e que, a despeito da sua vida, o teatro é o único que sabe morrer e ainda assim continuar). ⁋ Logo no início, vê-se que estamos diante de duas versões do tempo, encarnadas nestes atores. Um passado e um futuro partilhando o mesmo espaço presente. (Ou um presente e outro presente, ocupando o mesmo presente). E essa partilha não deixa de ter um tom de melancolia. A morrer, não é? O teatro me ensina a morrer, eu penso. Que pensamento inoportuno! Como é que vou explicar isso sem parecer presunçoso? (Logo eu, que ainda não morri). Mas é que vendo aqueles dois é difícil não pensar que é sobretudo o conhecimento ou o desconhecimento da mortalidade que nos move.


⁋ Vamos a isso. Mesmo que inconscientemente, é a condição da morte, do fim e do desaparecimento que angaria sentido à trajetória da vida. É a condição finita da temporalidade que fundamenta o sentido da existência e que permeia todo o tempo da vida humana. (E é uma pena que isso tenha se tornado, talvez, uma verdade final). Em outras palavras, a existência está condicionada a uma sucessão infinita de possibilidades, entre as quais se encontra justamente a morte como elemento artístico significante que possibilita a imersão do olhar crítico sobre a vida habitual. (Seria possível afirmar que esta peça apresenta a morte assistindo dois atores enquanto eles conversam?).

⁋ Em Uma vida no teatro desvelam-se as relações entre a vida como teatro e o teatro como vida. A barroca imagem de que a vida é um teatro em que vamos, ao longo dela, desempenhando distintos papéis através de nossas idades e em função de variadas circunstâncias; o teatro como preparador da experiência diária, ou como forma de vida profissional, ou ainda como um universo autônomo onde encontramos os mesmos problemas que fora dele. O próprio David Mamet, autor da dramaturgia deste trabalho, evoca Albert Camus ao citar a ideia do ator como exemplo da natureza de Sísifo: uma vida no teatro não precisa ser análoga à “vida”; é a vida. A mesma pedra que rola, que pesa, que esmaga, é a que constrói. ⁋ À medida que a peça continua, assistimos a conversas contínuas entre os dois atores enquanto eles se sentam em suas penteadeiras e se preparam ou decoram o seu texto. Mas além disso, também vislumbramos performances desses atores, pequenos esquetes que são encenados pelos dois, porém, de costas para nós. Afinal, o fundo do palco onde o Teatro Aberto apresenta a sua peça é, para os atores dentro da peça, onde se encontra a sua plateia que, no entanto, nós só podemos imaginar. Quando os esquetes acontecem, ocupamos o fundo do palco deles. Assim como os atores, quando estão no camarim, partilham um espelho imaginário entre si, nós, o público, partilhamos a mesma matéria com o público invisível à nossa frente; nós estamos frente a nós mesmos. (Podemos perder mais tempo, talvez isso tenha importância, talvez seja isso o que o teatro faz e que a vida ainda não tenha aprendido a fazer: estamos nós diante do fundo de um palco que, no entanto, está cheio de gente; atrás dos atores, que é onde agora estamos, no entanto, não há nada, exceto o fundo de um palco; e mais, podemos imaginar que, por um momento, aquilo que não existe passa a existir e o que existia, eu, nós, oscilamos, como uma luz que ora acende, ora apaga). As narrativas e as representações variadas empregadas nos trechos desses esquetes, proporcionam momentos de leviandade ao mesmo tempo que revelam fraquezas em cada ator; embora seja revigorante notar que, apesar das frustrações de ambos os atores e dos esforços nem sempre bem-sucedidos, há uma superação de qualquer possível conflito entre eles. Experimenta-se até alguns instantes de ensaio e de mútua colaboração entre os dois. ⁋ Uma vida no teatro apresenta a sua própria prática como esse planeta melancólico. Uma sensação de que as coisas passam e que, bom, isso é tudo. Aliás, acaba de passar pela minha cabeça uma banda desenhada da Laerte. “Todo dia de manhã, eu desembarco num país estrangeiro. A língua é familiar, mas desconheço as pessoas, os assuntos. Queria voltar para o meu país um dia. Se eu lembrasse qual é.” ⁋ Saio desse texto a pensar na pergunta que a minha escolha me fez. O que o teatro me ensina? Creio que seria interessante não tentar respondê-la, deixá-la como uma chamada ao pensamento, às reflexões, sobretudo aos que escolheram o teatro como profissão (pelo menos, como uma delas). O que o teatro me ensina? Espero que ninguém nunca me pergunte isso, mas vou deixar uma resposta para ser apagada depois. ⁋ O teatro me ensina a viver na intimidade de um ser estranho, não para me aproximar dele ou conhecê-lo, mas para saber mantê-lo estranho, distante, quase improvável.



 

PROGRAMA DE ESCRITA

Gustavo Colombini assistiu ao espetáculo Uma vida no teatro no dia 10 de maio de 2024, às 21h30, no Teatro Aberto (Lisboa); do dia 15 a 22 de maio, escreveu uma primeira versão desse texto; por fim, no dia 22 de maio, Colombini e Diogo Liberano finalizaram juntos esse texto.


 

Uma vida no teatro

Dramaturgia: David Mamet | Tradução: Maria João Vaz | Encenação: Cleia Almeida | Cenário: David Serrão | Figurinos: Marisa Fernandes | Desenho de Luz: Diana dos Santos | Sonoplastia: Noiserv | Vídeo: Eduardo Breda | Com: Alfredo Brito e Vítor Silva Costa

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